Cais Novo

O Pão

O mais partilhável dos prazeres…o pão, ou o saboroso poder da multiplicação!

A História

Tido como o alimento por excelência, já com direito a Museu Nacional, o pão liga-se desde de muito cedo à história da humanidade. Com uma importância atestada pela constante presença nas reinvenções históricas, representações artísticas e literárias, ou na simbologia que o confunde com o próprio corpo de Deus, ele acompanha todos os momentos da nossa vida. E da nossa história. 

  • Nutriu os construtores das pirâmides, exércitos conquistadores e divisões sociais.
  • Na sua falta a discórdia avança entre os homens, ao ponto de fazer ruir regimes.
  • Em seu torno, regressa a bonança, e por ele valem todos os esforços.
  • E nem o castigo divino, que nos condenou a comê-lo com o suor do nosso rosto, nos fez desistir de lutar pelo pão-nosso de cada dia.

Uma história com datas muito antigas!

 Descoberto o fogo há 500.000 anos, estima-se que cerca de 400.000 anos depois os cereais tenham começado a ser consumidos tostados. As receitas não chegaram até nós, tal como faltam dados sobre os locais exatos onde tais experiências foram praticadas pela primeira vez. 

Contudo, sabe-se que, há 10.000 anos, o Médio Oriente começou a apostar num cultivo regular de cereais, já destinado ao fabrico do pão. Para tal, o cereal mais usado (não só aí, mas em todo o mundo) foi, desde sempre, o trigo. Altamente nutritivo, rico em proteínas e hidrocarbonatos, com muitas vitaminas indispensáveis a uma dieta saudável, o seu sabor terá sido, contudo, o grande fator de sucesso. 

Também os egípcios cederam ao seu saboroso paladar e de dedicaram ao apuramento da farinha, de modo a preparar o melhor pão possível. Ao longo da longa história do país das pirâmides, registam-se notáveis progressos: A primeira mó foi aí inventada (até então, o grão do cereal era moído á mão), bem como o primeiro forno fechado

Entre as duas invenções medeiam 5000 anos (a primeira decorreu por volta de 8000 a.C., e a segunda já cerca de 3000 a.C.), durante os quais o cultivo de trigo se desenvolveu consideravelmente nas férteis margens do Nilo. Bem moído e cozido, o pão resultante era de tal modo importante na alimentação e economia egípcias que os trabalhadores das pirâmides eram pagos com ele, ao mesmo tempo que as oferendas eram feitas a Osíris, Deus patrono dos cereais.

 

Os benefícios

Preocupações com a saúde

 O século XIX, com as suas preocupações higienistas e nutricionistas, deu também importante contribuição para a história do pão, não só com as invenções de revolucionários processos de moagem, chegados da Suíça, como também com a descoberta de que o pão integral, presente nas dietas dos milhares, era mais saudável do que o branco.

Apesar disso, as inovações nos processos de fabrico, permitindo um maior e mais económico fabrico de farinha finamente peneirada, tornaram acessível às massas o pão branco que, durante séculos, apenas tivera lugar nas mesas mais abastadas.

E, mais uma vez, o pão escuro foi posto de parte. Tal preferência revelou-se, de facto, tão marcante que foram precisas décadas de insistência por parte de médicos e cientistas, por quase todo o século XX, para que o pão de mistura e integral voltasse a ser procurado.

Posto de parte nas dietas, em momento de maior ignorância, sabe-se hoje tratar-se de um alimento essencial, que não deve, por isso, ser esquecido.

O gosto do Pão!

Atualmente, o gosto por pôr as mãos na massa, parece ter voltado às nossas casas. Provavelmente cansados da monotonia do pão industrial (fatiado e empacotado numa invenção de 1912 e da responsabilidade de um tal Otto Rohwedder), menos bom para a saúde e muito menos saboroso do que as mais imaginativas misturas, voltámos à vontade de o fazer em nossas casas. Mas, mesmo que não o façamos, o pão, com o seu alto valor nutritivo, é um dos alimentos mais importantes do mundo Ocidental, se não mesmo o mais importante, como se pode deduzir face à grande quantidade de cereais produzidos no Ocidente. E, sobretudo quando apresentado na versão integral, já que o branco, por ter menos farelo, tem igualmente menos nutrientes e fibras, componentes essenciais numa dieta saudável, é um alimento rico em proteínas, cálcio, ferro, tiamina, riboflavina e niacina.

Constitui, portanto, um alimento indispensável. 


O fator social

Por todas essas razões, o pão manifesta-se como um eixo em torno do qual organizamos o nosso quotidiano. E, por isso mesmo, gostamos de o conservar em boas condições, de o levar à mesa com boa apresentação, glorificando-o na oferenda, e de o misturar com alimentos que lhe sublinham o paladar. Assim, ao longo dos séculos, foram também sendo desenvolvidos objetos que rondam o universo do pão.Desde os mais diretamente relacionados com a sua produção, aos que acompanham o seu armazenamento e consumo, como as caixas de pão, os cestos, os sacos de pano, os panos rendados ou pintados para o oferecer, os pratos, até as facas para nele barrar a manteiga, as colheres para sobre eles verter o doce ou as roscas para recolher o mel. E ainda as outras peças destinadas a recuperar-lhe o vigor dos dias em que estava fresco, como as tostadeiras e torradeiras, e depois os suportes que levam as torradas à mesa, e toda a cerimónia envolvente da refeição. 

Eixo do nosso aconchego!

Fonte de inquietação quando não existe (lembremos o caso extremo da fome que levou a população francesa a rebelar-se e que culminou na Revolução de 1789), não é por acaso que persiste o ditado popular que reza ”Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

Mesmo que ele seja difícil, ou que simbolize as dificuldades da vida (ele comeu o pão que o diabo amassou), nunca os tributos lhe foram negados e uma história de séculos de produção artística e literária atesta bem a sua relevância nas nossas vidas.

Branco, fino ou com muitas misturas, de trigo, centeio, cevada, arroz ou milho, o pão fez tecer os seus dias com o linho e o algodão, invadiu quotidianos e momentos de exceção, fez-se presente em telas e poemas, nutriu crianças, adultos e velhos, e foi até sonhado como algo de necessário na viagem final.

Por muito que alguns textos sagrados nos tenham lançado no mundo anunciando que a vida nos seria difícil, dizendo claramente “comerás o pão com o suor do teu rosto”, nunca ninguém deixou de o considerar como o melhor fruto do sacrifício. Nada mais vital do que ele, portanto.

Ou será por acaso que se diz de algo de indispensável ser tão preciso como o pão.